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Moradia digna é um desafio para estudantes universitários

Atualizado: 8 de ago. de 2020



Ter qualidade de vida na sociedade desigual em que vivemos não é uma tarefa das mais simples, para se ter noção o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) divulgou relatório concluindo que “quase um terço de todas as riquezas do Brasil estão concentradas nas mãos dos 1% mais ricos”, sendo a 2ª maior concentração de renda do planeta. As disparidades não param por aí, pois se você for mulher, ainda que a escolaridade seja maior, a renda é menor com uma diferença de U$7.395 ao ano. Nesse contexto a juventude luta por um direito básico, garantido na constituição segundo o artigo 6º, a moradia.

Embora o Brasil integre o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais que diz que os Estados que assinaram “reconhecem o direito de toda pessoa a nível de vida adequado para si próprio e sua família, inclusive à alimentação, vestimenta e moradia adequadas”, existe um déficit de moradias significativo. Segundo levantamento da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) com a Fundação Getúlio Vargas (FGV) apresenta que houve aumento neste déficit de 7% em dez anos, de 2007 a 2017, com 7,78 milhões de unidades, representando 13% da população. Para os estudantes essa situação é agravada. Muitos vêm de cidades fora da região metropolitana, zonas rurais, ou bairros distantes o suficiente para que cheguem em 3 ou 4 horas nos campi, então pergunta-se qual seria a melhor opção, alugar uma casa próxima do campus, conseguir um auxílio moradia ou continuar com a mesma rotina desgastante?

Ao debater sobre o assunto encontram-se diversos casos onde cada um aponta uma difícil realidade. Para Letícia, de 20 anos, egressa do curso de Enfermagem da UFPA, a maior preocupação entre aqueles que saem de casa e vão buscar moradia em outras cidades é a incerteza.

"A incerteza financeira mas que acaba sendo a incerteza emocional também, porque nem sempre as pessoas podem sair da casa das suas famílias para ir pagar aluguel, às vezes tem que ir para a casa de outras pessoas, então é uma incerteza muito grande e ao mesmo tempo uma negação de muitas coisas, porque a gente sai de um lugar que tem alguns costumes e vai para outro e às vezes para a casa de uma família que tem costumes totalmente diferentes. É algo muito incerto. Incerteza de não saber se vai ter o que comer e se vai ter como pagar aluguel, às vezes ficar doente e não ter o que contar...nossa...é muito complicado.” Letícia se mudou de Belém para Santa Catarina a procura de melhores condições de vida junto a sua companheira.

Relatos como este não são incomuns, frequentemente encontraremos alguém nos espaços de convivência que vive uma situação semelhante. Sheila Nascimento, de 20 anos, é militante do Movimento Correnteza, diretora do Centro Acadêmico de Pedagogia da UFPA e divide uma residência com 5 (cinco) pessoas. Ela conta quais são as dificuldades de lidar com a responsabilidade de estagiar, estudar, cuidar da casa e cuidar de si:

"As dificuldades de ser universitária, estagiar e dividir com alguém (uma casa) já começa devido o curso. Porque a gente que é da pedagogia os estágios são mais complicados, pois mesmo que tenham muitas vagas a remuneração, a bolsa, é um valor que não contempla o que tu fazes, normalmente as bolsas chegam a, no máximo, R$500,00 reais. Eu já fui chamada para fazer entrevista em lugares que a bolsa era de R$200,00 reais, então é nítido que ninguém consegue sobreviver com apenas R$200,00 reais com despesas como água, luz, aluguel, alimentação, entre outros."

Jhully Cristy, de 23 anos, é militante do Movimento Correnteza, Coordenadora Geral do Centro Acadêmico de Pedagogia da UFPA e uma das companheiras de moradia de Sheila. Ela conta como é o desafio de morar nessas condições vivendo apenas com a bolsa de iniciação científica (Pibic).

"Eu pago todas as minhas necessidades apenas com o valor da bolsa de iniciação científica que eu consegui na UFPA, e essa é a minha única renda. Então se em algum momento eu ficar sem essa bolsa ou ela atrasar como foi esse mês (abril) eu fico numa situação muito complicada porque essa é a forma que eu tenho para pagar as minhas contas, então morar sozinha é um grande desafio, mesmo, porque na sociedade que a gente vive o pouco que a gente ganha acaba não sendo muita coisa."

Seria fundamental falar sobre a situação dos estudantes que moram na Casa do Estudante da UFPA, entretanto as obras, que iniciaram em 2012, ainda não foram finalizadas. A Casa que já passou por licitações continua incompleta e utiliza de justificativa usada pela universidade é que houve rescisão de contrato e que criou um programa de apoio chamado “Bolsa Permanência”, que poderia continuar existindo paralelamente com a Casa do Estudante da UFPA. Outra situação é a Casa do Estudante localizada próximo ao Centro Histórico de Belém, porém está abandonada uma vez que a UFPA diz que não tem vínculo (mesmo havendo estudantes da UFPA nela) e a Secretaria de Educação do Estado também afirma que também não possui vínculo (mesmo havendo estudantes da rede estadual). Uma ação proposta pelo Ministério Público do Estado (MPE) busca definir a quem cabe a responsabilidade do espaço.

Então há que se perguntar: aceitaremos viver com incertezas, má distribuição de renda, péssimas condições de trabalho e estágio, ataques à autonomia universitária, desvalorização da produção científica e má qualidade de vida ou iremos à luta para garantir uma educação de qualidade? É necessário unidade para derrotar todos os ataques à juventude, aos trabalhadores e construir uma sociedade em que não mais passaremos fome e necessidades, uma sociedade verdadeiramente livre e que compreenda que a educação não é um gasto, mas um investimento, que a educação é um direito e não uma mercadoria.



Welfesom Campos Alves, militante da UP e do Movimento Correnteza



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